10 lições de Josep Piqué sobre a cultura da inovação

LinkedIn
Referência em inovação na Espanha, Pique veio a Florianópolis a convite da Recepeti

Referência em inovação na Espanha, Pique veio a Florianópolis a convite da Recepeti

O engenheiro de telecomunicações Josep Miquel Piqué é um dos expoentes na disseminação da cultura da inovação na Espanha. Presidente da Rede de Parques Científicos e Tecnológicos da Calalunha (XPCAT), Piqué esteve no Brasil em janeiro deste ano, quando firmou convênio entre a XPCAT e a Rede Catarinense de Inovação (Recepeti).

A instituição de Santa Catarina é a responsável pelo estudo e a proposição de um modelo de governança para os centros de inovação que estão sendo implantados no Estado desde 2014, a partir da Secretaria Estadual do Desenvolvimento Econômico Sustentável (SDS). O intercâmbio com o modelo espanhol ajudará a mover empresas e pesquisadores nos dois países.

Após o workshop ministrado aos catarinenses o discípulo de Henry Etzkowitz, um dos fundadores da tríplice hélice – gestão conjunta da economia do conhecimento por empresas, universidades e governo – Piqué listou requisitos para nutrir uma cultura voltada para a inovação e capaz de mudar a matriz econômica de uma região em qualquer lugar do mundo. Confira as lições do espanhol.

A inovação só se produz quando há uma execução e a cidade é a plataforma de inovação. O mercado local é determinante no desenvolvimento de inovação. Os centros de inovação têm que ser capazes de conectar ciência, tecnologia e empresas

Josep Miquel Piqué

 

1 Boas ideias devem ser globais

O mercado local é determinante para o processo de inovação. Basta entender que hoje as grandes corporações procuram inovação em todos os lugares do mundo. E a ideia que deve prevalecer é a da inovação aberta, que integra grandes e pequenas empresas. Esta conexão é que forma uma ecologia da inovação. Por isso uma rede é tão importante para a pesquisa e para a própria inovação. As universidades já são globais. A ciência é global. Quando pesquisadores produzem pesquisas e criam conhecimento, eles apresentam artigos em publicações internacionais, interagem com diferentes grupos e criam este cenário propício para a troca. As empresas precisam se adaptar a essa realidade também.

2 Internacionalização das relações

Um território se prepara bem para inovar quando retém o talento, quando cria novas gerações orientadas como cidadãos globais e para o empreendedorismo. Abre espaço à cultura inovadora quando atrai os jovens e cria condições, por exemplo, para que estrangeiros que estudam nas universidades locais queiram permanecer ali, viver, trabalhar naquele território.

3 Educação para o empreendedorismo

Os estudantes precisam ter experiências práticas de empreendedorismo ou vivência sobre as empresas desde a escola, o Ensino Médio, a Universidade. A cultura da inovação influencia os perfis profissionais. A melhor forma para que as crianças tenham vocação global, tecnológica, científica e empreendedora, é que experimentem dentro da educação este processo. No caso de Barcelona, por exemplo, proporcionamos uma competição de robótica para crianças desenharem protótipos e desenvolverem produtos tecnológicos. Elas se desafiam, desenvolvem sua vocação, mas começam experimentando a investigação. A forma de aprender é realmente fazendo.

4 Internacionalização das empresas

Para as empresas partirem para a internacionalização, a primeira reflexão tem de ser interna. Como eu posso agregar valor às minhas capacidades para o mundo? É preciso um diagnóstico sobre que setor econômico eu ocupo, com quem estou competindo e com que mercados posso me conectar para vender produtos e serviços. O Brasil é um país muito grande, então ele precisa passar primeiro por um processo de crescimento a nível nacional. Depois, o interessante é a internacionalização a partir da América Latina para, subsequentemente, partir para países desenvolvidos ou em desenvolvimento que possam utilizar as tecnologias, os produtos do Brasil. A internacionalização começa com a troca de informações. Se tenho uma empresa que pretendo tornar competitiva, preciso me comunicar com um centro de referência internacional.

5 Gestão de transferência tecnológica

Na lógica de transferência tecnológica, centros de inovação precisam os protagonistas, proativos e partir das demandas das empresas, das necessidades que elas têm. Os centros podem acelerar o atendimento de pequenas e médias empresas e fortalecê-las, porque estes estabelecimentos não têm tempo nem meios de financiamento para se adaptar sozinhos. Os parques de tecnológicos não podem ficar dentro de muros, mas ser capazes de virar referência em inovação e soluções para um território.

6 Conhecimento como capital do século

O conhecimento é o novo ouro do século 21 e os pesquisadores estão produzindo este ouro nas universidades e nos centros de pesquisa, que têm função chave na criação de conhecimento. Erra quem pensa que capital representa apenas dinheiro. Na cultura da inovação, ele é muito mais inteligente. Os centros de inovação têm de ser as portas do capital nas regiões, precisam acompanhar as empresas, dizer quais são as melhores formas de investimento, de recursos e convidar os bancos a dialogar.

7 Agenda e diagnóstico

Um dos papéis de um centro de inovação na sociedade é se comprometer com uma agenda de interesses, reunindo informações sobre inovação tecnológica, formas de financiamento e oportunidades para reter e formar talentos. O quadro de comando (a diretoria dos centros de inovação de SC, por exemplo) deve prever o que se passa no território de todos os centros de inovação da rede. A informação ajuda a identificar as limitações existentes.

8 O básico é indispensável

Na economia do conhecimento como matéria prima, precisamos dar lugar aos talentos. Em seu projeto de inovação, Barcelona investiu 200 milhões de euros em ruas, fibra ótica, infraestrutura, e as empresas privadas investiram mais de 2 bilhões. Sem um planejamento nos municípios não é possível desenvolver centros de inovação. Elementos como energia e fibra ótica, por exemplo, são o básico.

9 Redes para cultivar o coletivo

Assim como as redes articulam a vida, os centros regionais de inovação devem ser núcleos de redes. O capital relacional é muito importante, é mais do que uma grande lista de contatos em seu celular. É a forma de contato, o que é dito, a agenda de conversas. Uma rede de centros de inovação em um estado permite que cada unidade trabalhe localmente, conectada às demais, contribuindo com a produção de conhecimento coletivo. Se a ideia for de competição entre as cidades, está equivocada. Uns têm de ser inspiração para os outros, estimular alianças para novos empreendimentos e o desenvolvimento de produtos.

10 Qualidade de vida

Um polo de inovação não deixa de projetar alternativas para que os profissionais e suas famílias tenham qualidade de vida. É uma forma eficiente de reter e captar talentos. Na Espanha, as escolas internacionais para as comunidades estrangeiras são uma forma de estreitar o relacionamento entre as pessoas, para elas não se isolarem ou irem embora. Há comunidades inglesas, francesas, alemãs, muitos expatriados em Barcelona. É preciso fazer uma ponte entre eles e a comunidade local, porque a diversidade é uma coisa necessária e ativa. Em centros regionais de inovação, um modo de proporcionar esse tipo de integração parte do uso do espaço para atividades culturais, programação para a comunidade, inclusive nos finais de semana. Assim se muda uma cultura para favorecer a inovação. Cultura não é genética, então é preciso priorizar o coletivo.


Texto: Sicilia Vechi

Foto: André Motta

Compartilhe esta postagem